O calor na fábrica era intenso, e o barulho das máquinas abafava o som de qualquer conversa. Joaquín, com o rosto suado e mãos calejadas, sorriu ao ver seu filho, Carlos, brincando com pedaços de papel no escritório. Ao lado dele, sua esposa, Marta, organizava alguns documentos. Ela sempre insistia em acompanhá-lo ao trabalho, dizendo que gostava de estar perto e de garantir que tudo corresse bem. Joaquín sabia que a fábrica era o sustento deles, mas, para ele, a verdadeira riqueza estava ali, em sua pequena família.
De repente, um estalo cortou o ar. Joaquín ergueu a cabeça, franzindo a testa. Um cheiro forte de fumaça encheu a sala, e ele sentiu o coração acelerar. Olhou para Marta, que parou de organizar os papéis e fixou o olhar no corredor.
— Joaquín… — ela sussurrou, sua voz trêmula e os olhos arregalados. Marta deu alguns passos em direção ao corredor, mas hesitou, colocando a mão sobre o peito, como se quisesse impedir o coração de saltar.
Joaquín correu até o corredor, mas o fogo já lambia as paredes. A fumaça era espessa, e ele mal conseguia enxergar. Voltou-se para Marta e gritou, com desespero, tentando sobrepor-se ao ruído das chamas.
— Marta, pegue Carlos e saia daqui agora! — Ele apontou para a porta de emergência, mas sabia que a saída estava longe e que o fogo avançava rápido demais. Marta hesitou, seus olhos fixos nos de Joaquín, enquanto Carlos, inocente, continuava a brincar, sem entender o que se passava.
Ela deu um passo em direção a Carlos, mas um estalo mais alto fez o chão tremer. As vigas da fábrica começaram a ceder, e Joaquín percebeu, com horror, que as chamas estavam cercando o escritório. Ele se lançou em direção a Marta, tentando alcançar o filho também, mas a fumaça densa tornava cada movimento mais lento, como se estivesse preso em um pesadelo.
— Marta! — ele gritou, sua voz rouca pelo calor. Ela tentou correr até Carlos, mas foi parada por uma onda de chamas que bloqueou o caminho. Ele viu o olhar dela mudar, de medo para desespero, quando percebeu que não conseguiria sair.
Marta se virou para ele, lágrimas nos olhos, enquanto o calor começava a sufocá-los.
— Cuide de nosso filho, Joaquín, por favor… — sussurrou, sua voz engasgada pela fumaça. Joaquín sentiu uma dor indescritível, como se seu próprio coração estivesse sendo consumido pelo fogo. Ele tentou avançar, mas a intensidade das chamas o empurrou para trás, obrigando-o a recuar. Ali ele caiu e viu tudo escurecer, enquanto lutava para se manter acordado e proteger o filho.
Lá fora, os bombeiros chegaram, mas parecia tarde demais. Joaquín foi arrastado para fora por um dos bombeiros, seu corpo coberto de fuligem, seus olhos ainda fixos na fábrica em chamas. O som de vigas desabando ecoava em seus ouvidos enquanto ele observava impotente.
“Como isso foi acontecer?”, ele pensava, ainda atordoado. Ele sentia uma mistura de horror e incredulidade, como se a realidade estivesse lhe escapando, como se tudo aquilo fosse um pesadelo do qual ele acordaria a qualquer momento.
Quando o fogo finalmente cedeu, restaram apenas cinzas e destroços. Eduardo, o dono da fábrica, apareceu ao lado dele, com uma expressão de compaixão duvidosa.
— Joaquín, sinto muito pela sua perda. Foi um terrível acidente. Vamos providenciar uma indenização para ajudar você e seu filho — disse, colocando a mão no ombro de Joaquín, como se estivesse oferecendo consolo. Mas o olhar de Eduardo era frio, desprovido de qualquer verdadeira empatia.
Eduardo era um figurão da cidade, um magnata do ramo imobiliário que sempre levantava suspeitas de como havia construído seu império. Era o tipo de pessoa que só buscava o benefício próprio e não se importava com os outros. Quando era visto conversando com alguém, certamente era para tirar proveito de alguma maneira. Ele nunca perdia.
Joaquín, ainda em choque, sentiu uma pontada de raiva ao ouvir aquelas palavras. Observou Eduardo se afastar e notou o olhar diferente nos olhos do homem, como se aquele incêndio fosse algo conveniente para ele. Isso acendeu uma suspeita em Joaquín, algo que ele não podia ignorar. Havia algo estranho na rapidez com que tudo fora “resolvido”; os bombeiros, Eduardo ali, tudo.
Com o coração apertado e a dor ainda crua, Joaquín se levantou dos destroços e lançou um último olhar para a fábrica destruída.
Aquela tragédia não poderia ser em vão, e ele sabia que, de alguma forma, aquilo não estava certo. Estava determinado a descobrir o que realmente havia acontecido, e porquê. Mas naquele momento a sua maior preocupação era fazer com que Carlos, seu filho, fosse levado para casa. Era certo que eles tinham muito a conversar.
Tempos depois, Joaquín com um semblante desleixado e cheirando a álcool, caminhava pelas ruas estreitas da cidade, com o rosto coberto por um boné e os ombros caídos pelo peso da dor e da responsabilidade. Sabia que estava lidando com gente perigosa. Mas o que eles não sabiam era que ele estava determinado a ir até o fim. A fábrica podia ter sido destruída, mas as lembranças e os segredos que escondia ainda estavam vivos. E ele conhecia alguém que poderia ajudá-lo a juntar as peças.
Ele bateu três vezes na porta de uma casa modesta. Um homem baixinho, de olhos nervosos, abriu, espiando para fora antes de deixar Joaquín entrar.
— Joaquín, o que você está fazendo aqui? — o homem sussurrou, fechando a porta rapidamente, enquanto olhava pelas janelas para garantir que ninguém os vigiava.